quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

A CASA DE CADA UM

(texto de Walcyr Carrasco)

Nesta época, gosto de tratar da vida.

Dou a roupa que não uso mais.

Livros que não pretendo reler. Envio caixas para bibliotecas.

Ou abandono um volume em um shopping ou café, com uma

mensagem: "Leia e passe para frente!".


Tento avaliar meus atos através de uma perspectiva maior.

Penso na história dos Três Porquinhos. Cada um construiu sua

casa. Duas, o Lobo derrubou facilmente.

Mas a terceira resistiu porque era sólida. Em minha opinião,

contos infantis possuem grande sabedoria, além da história

propriamente dita.

Gosto desse especialmente.
Imagino que a vida de cada um seja semelhante a uma casa.

Frágil ou sólida, depende de como é construída.

Muita gente se aproxima de mim e diz: Eu tenho um sonho,

quero torná-lo realidade! Estremeço.
Freqüentemente, o sonho é bonito, tanto como uma casa

bem pintada. Mas sem alicerces.

As paredes racham, a casa cai repentinamente, e a pessoa

fica só com entulho. Lamenta-se.
Na minha área profissional, isso é muito comum.


Diariamente sou procurado por alguém que sonha em ser

ator ou atriz sem nunca ter estudado ou feito teatro.

Como é possível jogar todas as fichas em uma profissão

que nem se conhece?
Há quem largue tudo por uma paixão. Um amigo abandonou

mulher e filho recém-nascido.

A nova paixão durou até a noite na qual, no apartamento do

10º andar, a moça afirmou que podia voar.

Deixa de brincadeira , ele respondeu.
Eu sei voar, sim! rebateu ela.
Abriu os braços, pronta para saltar da janela. Ele a segurou.

Gritou por socorro. Quase despencaram.

Foi viver sozinho com um gato, lembrando-se dos bons tempos

da vida doméstica, do filho, da harmonia perdida!

Algumas pessoas se preocupam só com os alicerces. Dedicam-se

à vida material.

Quando venta, não têm paredes para se proteger.

Outras não colocam portas. Qualquer um entra na vida delas.
Tenho um amigo que não sabe dizer não (a palavra não é tão

mágica quanto uma porta blindada).

Empresta seu dinheiro e nunca recebe. Namora mulheres problemáticas.

Vive cercado de pessoas que sugam suas energias como

autênticos vampiros emocionais.

Outro dia lhe perguntei: Por que deixa tanta gente ruim

se aproximar de você?
Garante que no próximo ano será diferente. Nada mudará enquanto

não consertar a casa de sua vida.


São comuns as pessoas que não pensam no telhado. Vivem como

se os dias de tempestade jamais chegassem.

Quando chove, a casa delas se alaga.
Ao contrário das que só cuidam dos alicerces, não se preocupam

com o dia de amanhã.


Certa vez uma amiga conseguiu vender um terreno valioso

recebido em herança.

Comentei:
Agora você pode comprar um apartamento para morar.
Preferiu alugar uma mansão. Mobiliou. Durante meses

morou como uma rainha.

Quase um ano depois, já não tinha dinheiro para botar um bife na mesa!


Aproveito as festas de fim de ano para examinar a casa que construí.

Alguma parede rachou porque tomei uma atitude contra meus princípios?
Deixei alguma telha quebrada?
Há um assunto pendente me incomodando como uma goteira?
Minha porta tem uma chave para ser bem fechada quando preciso,

mas também para ser aberta quando vierem as pessoas que amo?


É um bom momento para decidir o que consertar. Para mudar

alguma coisa e tornar a casa mais agradável.
Sou envolvido por um sentimento muito especial.
Ao longo dos anos, cada pessoa constrói sua casa.
O bom é que sempre se pode reformar, arrumar, decorar!
E na eterna oportunidade de recomeçar reside a grande beleza

de ser o arquiteto da própria vida

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

DE MALAS PRONTAS









Tenho e sempre tive a convicção de que esta vida aqui
é uma estação de uma longa viagem de origem e
destino desconhecidos.
Mas todas as vidas, a minha, a sua, a de todos, passam
pelo mesmo caminho que leva ao crescimento humano
e espiritual.
Tem quem queira prosseguir a viagem.
Tem quem queira passar voando pela estrada.
Tem quem queira interrompê-la abruptamente.
Tem quem passe alheio a tudo, até mesmo à vida.
Esse aí não vive na verdade… passa o tempo inteiro
da viagem sentado a beira do caminho.
Sem aprender, sem progredir… sem crescer.
Não viaja, nem vive… só sobrevive.
Pra alguns a viagem é curta… nem chega a desembarcar,
embarca de volta.
Pra outros a viagem é loooonga!
Há quem leve na bagagem experiências ruins e aprenda
com elas. N’outras bagagens as
experiências ruins se transformam em peso…pesam muito,
viram mágoa e se transformam
em doença.
Na minha bagagem, as experiências ruins transformo
em aprendizado.
Isso as tornam leves.
Na minha estrada observo cada pedrinha do caminho.
O sol, a chuva, as folhas,
as plantas, animais.
Sou feliz por viver, por respirar, andar, enxergar,
poder falar, ter corpo perfeito,
cérebro que funciona, mente que trabalha.
Observo especialmente o ser humano e suas diversas vestes.
Não as do corpo… porque são irrelevantes.Mas as da alma.
A veste da cultura pode encobrir uma personalidade bronca,
rude, vazia, egoísta.
O ouro, a riqueza… podem encobrir a pobreza extrema
do espírito.

Em contrapartida a veste da simplicidade pode encobrir
um espírito de
um estado de nobreza irretocável, sutil, de uma elevação
indescritível.
Ano Novo é tempo de repensar.
Reavaliar o que foi feito durante um ano inteiro e sobre o
que se pretende mudar.
Ano novo é hora de novos sonhos, novas auto–propostas.
Não adiantou sonhar, ter um reveillon maravilhoso, se não
houve um reveillon íntimo.
Roupas não vão vestir nem o meu nem o seu futuro.
Não importa se passou de branco, de prata, numa festa
em família, vendo a queima
de fogos... com champanhe, num lugar chiquérrimo, na montanha,
à beira da praia ou num barracãozinho.
Nem o cenário nem o figurino são essenciais...
são meros detalhes.
Não importa se virou o ano dormindo. Só não pode dormir
por mais um ano.
Fechar os olhos aos objetivos, às metas, ao melhoramento.
Se fizer isso não será
um ano novo.
Não será nada além de “mais um novo ano velho”.
Inicie o ano agradecendo.
Agradecendo a chance de existir, de respirar, andar, enxergar.
Ter tido o privilégio de ser trazido a terra pelos
meus anjos: pai e mãe.
Ter uma família especial, ter tido uma infância
de sonhos e oportunidade de aprendizado de vida,
de valor imensurável.
Oportunidade de ter saúde bastante para dar vida à outra vida.
Oportunidade de trabalho, sob todos os ângulos.
Pela tentativa constante e incansável de manter mãos
e coração limpos. Pela presença de pessoas que me amam
e a quem amo também.
E o presente de amigos “presentes”, os mais distantes,
os de sempre e os que chegaram de surpresa.
Estou pronta pra me revisar... me reavaliar.
Faça as malas você também... Deixe pra traz o que
você não conseguiu melhorar.
Melhore-se, melhore a vida de quem puder...
melhore o seu jeito de olhar e agir com o outro, com o mundo.
Siga em frente e boa viagem!

Autora: Magaly Reinaldo.